Paulo Henrique Rodrigues Pinheiro

Blog sobre programação para programadores

A loira de branco (um conto em Curitiba)

Amor

Inverno. Noite com lua cheia. Neblina densa. Silêncio. O vento frio, pronto a castigar implacavelmente qualquer um que ouse estar nas ruas. Passos. O barulho é inconfundível, um solitário homem e seus sapatos. Um lento e compassado caminhar.

Alguém sem rumo e sem medo está na rua. Os cachorros não latem, nenhum carro passa por perto. Nenhuma outra alma viva pela rua. Esse solitário e desavisado cristão começa a contornar o Cemitério do Abranches. Um muro sem fim como companheiro de caminhada.

O vento no rosto, apesar de frio, proporciona grande sensação de liberdade, de bem-estar. Caminhando madrugada adentro, sem destino, sem pressa, sem pensamentos.

- mmmmmmmmm....

Um gemido. Nosso herói acorda de sua letargia e começa a prestar atenção. Um feminino gemido, um provocante e sensual gemido...

"Será que tem alguém ... no cemitério?", cogita ele. O coração acelera, a respiração fica ofegante. Ele pára, e procura localizar a origem do gemido. É dentro do cemitério. E é só o feminino gemido.

"E se for uma mulher sozinha?", pensa, massageando o já prontificado membro. Pula o muro. O antes avoado cristão a caminhar agora transforma-se em esfomeado macho caçador. A presa continua anunciando-se pelo gemido.

O caçador atravessa cada vez mais afoito as ruas que separam e misturam túmulos confundindo o caminho. Os gemidos aumentam, o caçador sabe que a hora de abater a presa se aproxima.

Os cães latem, as nuvens correm, a neblina desaparece, a lua brilha mais forte. Surge ela, a temida, a mortal, a loira de branco. Ela veste apenas uma longa e transparente grinalda. Os longos cabelos e a transparente grinalda.

A loira de branco, aquela que era lenda... É real. O cadáver de uma linda mulher. Ele sente que ela está morta, mas ela é linda, e está de pé na tampa de um túmulo. O Vento frio fazendo a grinalda e seus cabelos dançarem a torna irresistível.

E os olhos dela, olhos que hipnotizam, o fazem ir sem pensar ao seu encontro.

Secas grimpas chovem das araucárias. Os cães lazarentos latem com mais força e raiva. O vento uiva assustadoramente. O brilhante queimar da lua desvela peles e olhares...

O resto da história é com vocês diletos leitores.

Escutai, pois! Se as estrelas se acendem

é porque alguém precisa delas.

É porque, em verdade, é indispensável

que sobre todos os tetos, cada noite,

uma única estrela, pelo menos, se alumie".

"Estrelas", de Maiakovski (1913)


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