Paulo Henrique Rodrigues Pinheiro

Blog sobre programação para programadores

O pokerface nosso de cada dia

Lembrando as humilhações ao longo da carreira

PokerFace

Quando estamos imersos em uma cultura de superiores e inferiores, a humilhação é o cotidiano. Aqui vai meu TopFive pessoal de situações em que me senti extremamente humilhado no ambiente de trabalho.

Aquele tipo de situação, em que alguns minutos depois de você passar, pensa "porque não reagi?". Ou então tem uma resposta brilhante a uma situação que já é passado.

5 - Empregado, portanto submisso em tempo integral

Felizmente, nesse tempo, eu era jovem e a saúde estava em dia. Passei uma noite sem dormir expelindo ódio.

Empresa familiar, o filho desviando dinheiro e afundando a empresa, os irmãos invejando não poderem fazer o mesmo, e o pai aperfeiçoando-se em ser estúpido.

Estava eu, tomando umas beras e jogando sinuca, quando o velho chega e começa a gritar comigo.

A ira dele era porque o último a sair da empresa deixou uma janela aberta. Portanto eu era um irresponsável, vagabundo e inconsequente, além de outras palavrinhas. Mas, como podem notar, eu não fui o último a sair e sequer tinha chave ou senha de alarme. Mas essa minha argumentação não o impediu.

No outro dia, mais irado, esperei ele chegar, entrei na sala e tentei explicar. Muitos gritos depois, percebi que, por algum motivo inexplicável, ele estava com medo de mim, talvez por eu ter entrado com tudo na sala e fechado a porta. Percebi isso quando ele disse "eu não tenho medo de você", sem que eu fizesse ameaça alguma. Saí um pouquinho melhor de lá.

Não sou de "ir aos finalmentes", nem de demonstrar exaltação, por isso notei a fragilidade dele naquele momento. Confesso que isso me acalmou e deixou um pouco feliz.

Trabalhei mais de 12 anos nessa empresa. Apesar de tudo, só lá passei por três grandes transformações no mundo da informática: MS-DOS -> Novell -> Linux.

E em relação ao título dessa história, o velho chefe achava, e falou isso pra mim, que se eu era contratado dele, a qualquer hora e em qualquer lugar, ele tinha poder sobre mim.

4 - A gente tem um contrato, enrola o cliente

Eu, um sujeito avesso a Windows, que era motivo de piada quando precisava usar uma máquina não Unix, porque não me achava. Eu, um programador C para infra de Unix.

O comercial, sem a participação da gerência técnica, vende um contrato de manutenção de infraestrutura legada baseada no Windows NT em português. Sim, Windows NT em português... Era um produto com alguns recursos do Windows NT normal a menos.

Ninguém sabia desse contrato, até que um dia recebemos um telefonema.

Investigando, descobrimos o tal contrato. Ele tinha direito a uma quantidade de horas no local. Após algumas discussões entre gerências técnica e comercial, o fato era que o cliente tinha que ser atendido.

Ninguém conhecia o produto usado pelo cliente. Então como se resolve isso? Manda qualquer um, só pra cumprir o contrato. O escolhido foi... Exatamente.

E lá fui eu, com celular da empresa, muito contrariado. Cheguei lá, por telefone fui informado de onde deveria clicar. O cliente, ao meu lado, só dizia "isso eu já fiz". O chefe, do outro lado, dizia "faz de novo, só pra ganhar tempo".

Mas eu suportei, porque o salário até que era bom, e o mais importante, eu tinha total liberdade para definir a infra que eu administrava, além de ter servidores Sun à vontade para brincar.

3 - Eu posso te arranjar no máximo três vezes o seu salário atual

Estava há uns cinco anos trabalhando em uma empresa, que apesar dos problemas, eu gostava, pois me dava acesso a muitos tipos de Unix. Eu respirava C e Perl, compilando e administrando serviços como Apache/PHP/CGI, FTP, MySQL, Bind, em servidores Linux, FreeBSD, OpenBSD e o que eu mais gostava, Solaris.

Mas algo me irritava profundamente. Eu tinha cargo de programador, o menor salário de programador, e realizava trabalho de "analista", conforme a nomenclatura da época. E sempre expus meu descontentamento. A resposta é que eu não era qualificado (não tenho diploma de curso "superior") para o cargo de analista, portanto, para o melhor salário. Mas, como eu sempre falava, se eu não era qualificado para o cargo, porque de fato o exerço?

Até que um dia, me candidatei a uma vaga de analista de suporte de 3º nível em uma empresa terceirizada da Oi. Era a semana da independência, com direito a feriado na quinta, com a sexta engolida. Uma maravilha!

No começo dessa semana, conversei, fui entrevistado, fiz teste e acertei o novo emprego. O único porém é que eu deveria me virar para aprender Python. Ganhei de um amigo que trabalhava comigo um "Guia de consulta rápida" do Python editado pela Novatec. Li, reli, fiz testes, nessa semana.

Apresentei meu pedido de demissão. Sem aviso prévio, mas aberto a alguma forma de transição. Aí fui chamado de sacana, que ia abandonar a empresa, que não era um comportamento profissional.

Isso já me encheu o saco.

Então veio o pior. Estavam me oferecendo, de imediato, três vezes o meu salário atual (isso era um pouco mais do que iria ganhar no novo emprego). E com a ressalva de que aquele era o máximo segundo as regras da empresa, pelas minhas condições.

Então me lembrei dos anos (sem exagero) em que vinha pedindo adequação de cargo e salário. E lembrei de algo que escutei lá: se alguém pede demissão pode-se propor um salário maior para ganhar tempo enquanto se busca um novo profissional. Quando achar o novo, demite-se quem queria ir embora...

Pelo menos nessa história houve um final feliz. Comecei na nova empresa já capaz de desenvolver em Python, e minha carreira tomou outro rumo, muito melhor.

2 - Vai tomar no "sul", seu filho duma "gruta"!

Vinte e quatro de dezembro, há uns 15 anos, eu fui o otário escalado para ficar de plantão. Alguém do contact center, muito sem noção, e sem saco para atender a um cliente irritado, passa o número do telefone do plantão para o cliente (esse plantão era um suporte terceiro nível, não um atendimento vip). Eu, em minha casa, em meio a um jantar, atendo o telefone e escuto:

Eu tô de saco cheio, e tive que gritar com o carinha do atendimento pra me dar o seu telefone. Vai tomar no ** seu filho duma ****. Você vai fazer o que eu quero, agora!

Eu, na minha mansidão, argumentei que ele deveria se acalmar e que eu resolveria qualquer problema, desde que me explicasse o que estava acontecendo. Muitos xingamentos depois, um "você não sabe com quem tá falando", e um "amanhã eu vou na empresa te ferrar", eu disse pra ele que não poderia atender enquanto ele não se acalmasse e não explicasse o que ocorria. Me xingou mais e desligou o telefone sem explicar o que queria.

Resultado de tudo isso é que, mais uma vez, por conta do trabalho, passei uma noite em ira, e fui trabalhar decidido a encontrar o carinha estúpido. Avisei todo mundo que eu fazia questão de encontrá-lo, e estava mesmo decidido a partir pra porrada. Primeira vez em minha vida estava decidido de verdade. Secretamente decidido pra que ninguém do "deixa disso" atrapalhasse.

Pra mim não deu nada, além dos prejuízos físicos que vão se acumulando. Pro carinha do atendimento, demissão sumária. Até hoje não vi a cara do cliente nervosinho.

1 - O onanista

Essa foi a mais trash.

Havia algo que incomodava muito a todos. O gerente técnico, sempre que andando pela empresa, enfiava as mãos nos bolsos e ficava se masturbando. É... Empresa sem paredes (para os peões), com todo mundo junto.

Era motivo de piada interna, até que ele começou a se esfregar em algumas pessoas. Algumas até tinham gravação em vídeo, mas ninguém queria levantar a questão.

Eu era líder da equipe de infra, e um dos meus colegas sofreu esse tipo de assédio. Procurei o RH da empresa, contei tudo. E claro, eles também viam o comportamento dele.

Fica tranquilo, vamos resolver isso da melhor forma e com absoluta discrição.

Aí ferrou tudo. A perseguição atingiu o nível de o onanista vir gritando da sala dele, chamando minha atenção aos berros na frente de todos, diariamente. Após um tempo, perdi toda a educação, e comecei a enfrentá-lo. E a coisa foi piorando. A galera até já esperava pelos nossos duelos.

Fui mudado de lugar para ficar no pior lugar possível, com sol queimando, suando o dia inteiro. Banco de horas cancelado de uma hora para outra, até mesmo advertência escrita recebi. Corte de salário (nunca aceite salário por fora!). Claramente o caminho para que eu fosse demitido por justa causa.

Até que um dia as provocações estavam muito além do que eu poderia suportar.

Pedi a conta. Casado, esposa desempregada, com filhas pequenas, aluguel pra pagar, tudo mais. Ou fazia isso, ou perdia a razão. Em pouco tempo emagreci quase 30 quilos, parei de tomar remédio para controlar a pressão, e nunca mais tive que ir ao pronto-socorro por causa de travamentos lombares (horríveis, tinha no mínimo dois por mês).

E passei um longo período sem trabalhar. Não estou falando de emprego, sem trabalhar mesmo.

Finalizando

Sobrevivi a muito mais coisas, e certamente há quem tenha passado coisas muito piores.

Em grande parte desses momentos estava sendo administrado por profissionais incrivelmente bons em suas habilidades técnicas. Mas incompetentes ao máximo na lida com pessoas.

Já tive apego ao emprego, medo do desemprego. Insegurança de piá! É possível sobreviver a tudo e superar.

Adendo, 17/01/2017

É um assunto muito delicado mesmo. E muito presente. Nosso silêncio acaba alimentando esse monstro. O Kico (Henrique Lobo Weissmann), tem esse assunto como trabalho de conclusão de curso, e tem buscado discuti-lo. Aqui vão alguns links:

E esse, sobre fábricas de software.


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