Tem sido um caminho solitário e tortuoso.
Com uma criação católica apenas formal, pois as missas e o catecismo e a preparação para a crisma não passavam de teatralidade inalcançável, hoje vejo que fui católico apenas por uma obrigação.
Tinha que ir à igreja todo domingo pela manhã. Uma igreja frequentada pela alta classe média curitibana. Não era o meu lugar, não era a minha gente.
Nada fazia sentido, a não ser o bando de passarinhos (a “Igreja dos Passarinhos”, no Bigorrilho) que encantavam a todos com seus cantares de animais cativos.
Nesse Brasil em que nasci, ainda nascia-se católico, na prática. E não necessariamente por tradição familiar, mas muitas vezes por constrangimento social e supremacia católico-romana.
Assim, me parece que as tentativas de adequar Jesus ao pensamento revolucionário, mais servem a anacronismos absurdos, do que a um avanço na caminhada revolucionária pelo socialismo.
Agindo dessa forma, nos rebaixamos ao jovem rico, que quando confrontado por Jesus para doar suas riquezas, se entristece e se afasta. Ao forçar essas adaptações, o que queremos na verdade é preservar tradições de poder que acabam ofuscando a causa da libertação dos trabalhadores.
Isso não diminui a importância dos inúmeros militantes da Teologia da Libertação, cuja dedicação aos trabalhadores e aos pobres é parte inseparável da história das lutas populares na América Latina.
E quanto às contradições, não há por que temê-las. Não preciso resolvê-las artificialmente. A contradição é, afinal, o motor da história.
Talvez a maior demonstração de respeito seja justamente não forçar o encontro. Cristo não precisa ser transformado em comunista para que eu reconheça a força de sua mensagem. Tampouco a revolução precisa vestir símbolos religiosos para justificar sua necessidade histórica.
Basta que ambas permaneçam fiéis ao que são. Se um dia convergirem, será no sofrimento dos oprimidos e no desejo comum de que a injustiça, a opressão e a exploração deixem de ser a forma normal de organização do mundo.

