Se há um tema quente entre comunistas, é a China.
Há anos acompanho debates que parecem nunca chegar a lugar algum. De um lado, aqueles que enxergam na China praticamente um modelo acabado de socialismo; de outro, os que rapidamente a classificam como capitalista, imperialista, revisionista, traidora ou qualquer outra etiqueta que pareça resolver a questão.
Durante muito tempo, confesso, participei desse debate de forma semelhante. À pergunta “A China é socialista?”, respondia prontamente que sim. Ou então acompanhava discussões sobre capitalismo de Estado, imperialismo ou restauração capitalista, como se o centro da questão estivesse justamente nessa resposta.
Mas comecei a desconfiar de que o problema não estava nas respostas. Estava na própria pergunta: quem é essa tal “China”?
O debate costuma ocorrer em um grau de abstração que me incomoda profundamente. Fala-se da China como se fosse uma entidade homogênea. “A China é socialista.” “A China é capitalista.” “A China é imperialista.” Mas quem exatamente é essa China? Estamos falando de aproximadamente um bilhão e quatrocentos milhões de pessoas: trabalhadores industriais, camponeses, engenheiros, professores, estudantes, militares, quadros do Partido Comunista, empresários, cientistas, aposentados. Uma sociedade inteira, profundamente contraditória, vivendo um processo histórico que não encontra paralelo em nosso tempo.
Alguns poderiam argumentar que a discussão não trata de pessoas, mas de um sistema econômico. Ainda assim, pergunto: o que é um sistema econômico senão pessoas produzindo, governando, planejando, explorando, resistindo e transformando a realidade? Tenho a impressão de que, quando reduzimos toda essa experiência a uma única palavra, desaparecem justamente aqueles que deveriam ocupar o centro da análise: os trabalhadores chineses. É isso que mais me incomoda.
Um quinto da humanidade
Há um dado que considero impossível de ignorar.
| País | População Atual | % |
|-----------------|------------------|---------|
| Mundial | 7.900.000.000 | 100,00% |
| China | 1.426.391.281 | 18,06% |
| Coreia Popular | 25.778.816 | 0,33% |
| Cuba | 11.326.616 | 0,14% |
| Laos | 7.275.560 | 0,09% |
| Vietnã | 97.338.579 | 1,23% |
| Países socialistas | 1.568.110.852 | 19,85% |
Os números não são rigorosamente contemporâneos, pois cada país realizou seu censo em momentos diferentes. Mas isso pouco altera a conclusão. Aproximadamente um quinto da humanidade vive em países que se apresentam como socialistas, sendo a esmagadora maioria dessas pessoas habitantes da China. Esse simples fato já deveria modificar profundamente nossa forma de abordar o tema.
O socialismo continua existindo. Continua produzindo governos, partidos, economia, cultura, ciência, relações internacionais, conflitos internos e profundas transformações sociais. Não desapareceu junto com a União Soviética. A derrota soviética alterou profundamente a correlação de forças mundial e continua produzindo consequências que sentimos até hoje, mas não apagou do mapa as experiências socialistas. Elas continuam vivas. E justamente por estarem vivas são contraditórias.
O problema das definições
Percebo então uma segunda dificuldade. Não apenas perguntamos se a China “é” ou “não é” socialista, como também tentamos definir, quase como um teorema matemático, o que seria “o socialismo”. Essa tentativa sempre me causa desconforto. Talvez porque eu tenha deixado de pensar o socialismo como um estado acabado e passado a enxergá-lo como processo histórico.
As revoluções nunca encontraram um manual de instruções. A Revolução Russa não encontrou; a Revolução Chinesa também não. Nem Cuba, nem Vietnã, nem qualquer outro processo revolucionário. Cada um deles precisou resolver problemas inéditos. A realidade sempre torceu, ampliou ou mesmo colocou em crise formulações presentes nos textos clássicos. Isso não diminui a importância da teoria — ao contrário: a teoria existe justamente para nos preparar para enfrentar a realidade, não para substituí-la.
Penso nos clássicos como um músico pensa sua formação. Nenhum grande improvisador sobe ao palco sem dominar profundamente sua tradição, mas também não sobe ao palco para repetir mecanicamente tudo o que aprendeu. Improvisa, cria, adapta, dialoga com a realidade daquele momento. Talvez o marxismo deva ser entendido da mesma maneira.
Dialética ou lógica formal?
Há ainda um problema metodológico. Quando perguntamos “A China é socialista?”, normalmente esperamos uma resposta binária — sim ou não. Mas esse tipo de raciocínio pertence muito mais à lógica formal do que ao pensamento dialético. Não me parece que Marx, Engels ou Lenin tenham construído suas análises dessa maneira. A dialética parte justamente da contradição, do movimento, da transformação permanente.
Talvez a pergunta mais interessante não seja “o que a China é”, mas “como se desenvolvem suas contradições”. Quem dirige esse processo? Quais classes sociais disputam seu rumo? Quem acumula forças? Quem perde espaço? Quem transforma quem? São perguntas muito mais difíceis e infinitamente mais úteis.
O socialismo real nunca será puro
Sempre me lembro de uma observação de Luiz Carlos Prestes que considero extremamente atual:
“O mal do intelectual brasileiro é que ele idealiza o socialismo; um socialismo tirado da cartola dele. Como esse socialismo não coincide com o socialismo real, então combate o socialismo real.”
Essa frase nunca saiu da minha cabeça. Talvez porque ela ataque uma tendência bastante comum entre nós: construímos uma imagem ideal do socialismo, depois olhamos para qualquer experiência concreta e encontramos defeitos, encontramos concessões, encontramos mercado, encontramos desigualdades, encontramos burocracia, encontramos erros. Concluímos então que aquilo não é socialismo. Mas talvez o problema esteja justamente na imagem idealizada que construímos.
O socialismo real nunca será limpo, nunca será perfeito, nunca será uma simples aplicação de textos escritos décadas antes. Será sempre o resultado das lutas concretas de milhões de pessoas vivendo circunstâncias históricas igualmente concretas. E talvez seja exatamente isso que torna essas experiências tão importantes para quem deseja compreendê-las.
As contradições concretas
Se abandonarmos a necessidade de responder imediatamente se a China “é” ou “não é” socialista, abre-se um campo muito mais interessante de investigação.
À exceção da Coreia Popular, cuja situação geopolítica possui características muito particulares e cuja sobrevivência depende também da solidariedade chinesa, percebe-se, em todos os demais países socialistas, a presença de relações capitalistas em diferentes níveis. Na China encontramos uma poderosa burguesia formal, empresas privadas gigantescas, intensa inserção no mercado mundial e investimentos espalhados por praticamente todos os continentes. No Vietnã e em Laos, a abertura ao chamado livre mercado tornou-se parte importante da estratégia de desenvolvimento econômico. Em Cuba, convivem pequenas iniciativas privadas, turismo, mercados paralelos, contrabando, investimentos estrangeiros e uma economia estatal profundamente pressionada pelo bloqueio econômico imposto pelos Estados Unidos.
Tudo isso é real. Ignorá-lo seria tão equivocado quanto transformá-lo na única característica dessas sociedades. A questão que me parece importante não é simplesmente constatar a existência dessas relações, mas compreender como elas surgiram, quais necessidades procuram resolver, quais contradições produzem e, principalmente, quem conduz esse processo político. Essa talvez seja a pergunta verdadeiramente marxista.
Também existem contradições internacionais
Vivemos um período de acirramento das contradições do sistema imperialista. O ataque terrorista dos EEUU à Venezuela com o sequestro do presidente Maduro, o bloqueio total a Cuba, a série de intervenções políticas na Amétrica Latina, a guerra na Ucrânia, a ofensiva israelense no Oriente Médio culminando nos ataques ao Irã, e a crescente disputa entre as grandes potências revelam que o recurso à guerra voltou a ocupar posição central na reorganização da ordem internacional. Nesse contexto, China e Rússia aprofundam sua parceria estratégica, Cuba estreita suas relações com ambos os países, enquanto os capitais chineses continuam expandindo sua presença na África, na América Latina e em outras regiões do chamado “Sul Global”.
Lembro, por exemplo, da declaração pública de amizade entre o Partido Comunista de Cuba e o PSUV venezuelano, justamente quando este travava um duro conflito com o Partido Comunista da Venezuela. Não menciono esse episódio para emitir um juízo definitivo, mas apenas para lembrar que as políticas internacionais dos Estados socialistas também são contraditórias. E seria estranho esperar o contrário.
A política internacional nunca é um terreno simples. Ela envolve correlações de força, alianças temporárias, interesses estratégicos e decisões difíceis que nem sempre serão compreendidas imediatamente. Isso exige estudo, não slogans.
Nosso compromisso internacionalista
Há algo, entretanto, que me parece bastante claro. Nos países onde os trabalhadores conquistaram o poder político, ainda que sob formas contraditórias, nosso primeiro compromisso deve ser justamente com esses trabalhadores.
A revolução socialista não elimina automaticamente todas as relações econômicas herdadas do capitalismo. Também não produz, da noite para o dia, uma sociedade plenamente comunista. Ao virar as costas para essas experiências porque encontramos nelas contradições, corremos o risco de virar as costas justamente para os milhões de trabalhadores que continuam construindo essas sociedades. Penso que esse é um enorme erro, talvez o maior deles.
O internacionalismo proletário não pode consistir em escolher quais revoluções merecem nossa solidariedade apenas porque se aproximam mais dos modelos que imaginamos. Isso é oportunismo do mais vulgar.
Como estudar a China?
Também preciso reconhecer minhas próprias limitações. Não conheço suficientemente a China. Tenho leituras dispersas, desorganizadas e superficiais. Conheço alguns grandes debates, mas ainda estou muito distante de compreender em profundidade seus processos econômicos, sociais e políticos. Talvez essa seja a única afirmação absolutamente segura que consigo fazer.
Mas essa constatação leva a outra conclusão: precisamos estudar muito mais. Não apenas ler análises produzidas por comentaristas ocidentais, frequentemente mediadas pelos grandes grupos privados de comunicação, cuja função histórica dificilmente será explicar objetivamente os processos socialistas. Precisamos acompanhar aquilo que os próprios chineses, cubanos, vietnamitas, laocianos e coreanos escrevem sobre suas sociedades. Precisamos estabelecer relações permanentes com suas organizações. Precisamos produzir informação sistemática. Nossa imprensa comunista deveria possuir correspondentes nesses países, traduzir documentos, acompanhar seus debates internos e produzir análises contínuas. Não podemos viver apenas de notícias ocasionais, muito menos de fotografias congeladas dessas experiências.
Já existe bastante material acessível em português. A Xinhua publica diariamente notícias sobre a China. O Granma faz o mesmo em relação a Cuba. O Portal da República Popular Democrática da Coreia oferece vasta documentação sobre aquele país. Esses materiais, naturalmente, expressam a visão oficial de seus respectivos governos. Mas justamente por isso constituem fontes indispensáveis para qualquer estudo sério. Nenhum pesquisador compreenderia os Estados Unidos lendo apenas jornais chineses; da mesma forma, dificilmente compreenderemos a China lendo apenas jornais ocidentais.
O grande palco da luta de classes do nosso século
Volto, então, à pergunta inicial. Hoje ela já não me parece tão importante.
Continuo pensando que os trabalhadores chineses protagonizam uma das maiores experiências históricas de transformação social já realizadas. A erradicação da pobreza extrema, a rápida industrialização, a construção de infraestrutura em escala inédita, a expansão científica e tecnológica e a manutenção do Partido Comunista no centro da vida política constituem fenômenos históricos gigantescos. Ao mesmo tempo, também é impossível ignorar a existência de profundas desigualdades, de uma burguesia economicamente poderosa, de mecanismos de mercado e de inúmeras contradições internas. Nada disso desaparece porque escolhemos uma etiqueta, muito menos se resolve por meio dela.
Talvez seja justamente aí que resida a riqueza da experiência chinesa. Ela nos obriga a abandonar respostas fáceis; obriga-nos a estudar; obriga-nos a observar a história em movimento. Sobretudo, obriga-nos a recolocar os trabalhadores no centro da análise. Porque, no fim das contas, é deles que estamos falando. Não de conceitos abstratos, não de classificações definitivas, mas de centenas de milhões de homens e mulheres que vivem, trabalham, organizam-se, produzem, enfrentam contradições e transformam sua própria sociedade.
É por isso que insisto: não devemos nos transformar em simples etiquetadores de países. Devemos estabelecer relações permanentes com esses povos, compreender sua história, acompanhar seu cotidiano e aprender com seus acertos e seus erros.
Se o século XX foi marcado pela experiência soviética, tenho a impressão de que o século XXI será profundamente marcado pela experiência chinesa. Não porque ela represente um modelo acabado a ser copiado, nem porque esteja imune às críticas, mas porque talvez constitua hoje o maior palco da luta de classes em todo o planeta. Virar as costas para esse processo seria, ao mesmo tempo, virar as costas para cerca de um quinto da humanidade e para uma das experiências políticas mais fascinantes, complexas e decisivas do nosso tempo.

