Já na primeira vez em que assisti ao filme O Grupo Baader Meinhof fixei em uma passagem, com especial interesse profissional: em meio à caça aos militantes da RAF (Rote Armee Fraktion), a polícia alemã aparece utilizando computadores para tentar localizar suspeitos. Pensei ser uma liberdade artística, mas minhas buscas revelaram ser a realidade, em muitos aspectos, ainda mais impressionante.

A principal figura por trás dessa transformação foi Horst Herold, presidente do Bundeskriminalamt (BKA), a polícia criminal federal da Alemanha Ocidental, entre 1971 e 1981. Em uma época em que grande parte das investigações ainda dependia de fichários, arquivos físicos e trabalho manual, Herold defendia uma ideia ousada: utilizar computadores para processar grandes volumes de informações e identificar padrões invisíveis aos investigadores.

Sob sua direção, o BKA expandiu o sistema INPOL (Informationssystem der Polizei), uma das primeiras grandes bases de dados policiais da Europa. O objetivo era reunir informações sobre pessoas procuradas, veículos, armas, endereços, documentos e conexões entre suspeitos em um único sistema informatizado. Hoje isso parece algo trivial, mas na época era uma grande mudança.

A infraestrutura tecnológica envolvia alguns dos maiores nomes das empresas de TI daquela época. Depois desse impacto, lembrei que essa junção da TI com sistemas de opressão era nada de tão novo, pois ainda era o pós-guerra, se foram poucos anos ainda dos campos de extermínio nazistas, em que a inteligência empresarial e de processos e a automação da IBM contribuíram para o extermínio de judeus, comunistas, ciganos, e todas as pessoas que não se encaixassem no esteriótipo ariano. A novidade não estava no uso contra a humanidade, mas na técnica e nos objetivos. Mainframes da IBM tiveram papel importante na informatização da administração pública e dos órgãos de segurança alemães, ao lado de soluções desenvolvidas por empresas como Siemens e Nixdorf Computer AG, uma das pioneiras da indústria alemã de computadores. Não eram máquinas gráficas ou interativas como as que vemos nos filmes modernos. Tratava-se de enormes computadores centralizados, operados por especialistas, alimentados por cartões perfurados, terminais de texto e fitas magnéticas.

O aspecto mais interessante, porém, não estava no hardware, mas na metodologia.

Para localizar militantes clandestinos, o BKA desenvolveu técnicas conhecidas como Rasterfahndung, algo que pode ser traduzido como “busca por padrões”. Em vez de procurar diretamente uma pessoa específica, os investigadores cruzavam grandes quantidades de dados administrativos em busca de perfis considerados compatíveis com a vida clandestina.

O raciocínio era simples: um militante procurado provavelmente não apareceria nos registros convencionais da mesma forma que um cidadão comum. Poderia viver em um apartamento alugado sem movimentação bancária visível, sem emprego formal, sem benefícios sociais, sem veículo registrado em seu nome e com poucos rastros burocráticos. Ao eliminar milhões de registros que não correspondiam a esse perfil, os investigadores reduziam o universo de suspeitos a um conjunto muito menor.

O método ficou conhecido como “busca negativa”: encontrar alguém não por aquilo que aparece nos bancos de dados, mas justamente pelo que está ausente deles.

Vista com os olhos de hoje, a estratégia parece surpreendentemente familiar. O que Herold propunha era, em essência, uma forma primitiva de mineração de dados, análise preditiva e perfilamento algorítmico. Décadas antes de expressões como Big Data, machine learning ou inteligência artificial entrarem no vocabulário cotidiano, já existia a ambição de transformar enormes quantidades de dados em instrumentos de vigilância e previsão comportamental.

Podemos considerar esse período um dos antecedentes diretos das práticas contemporâneas de policiamento orientado por dados. A ideia de que algoritmos podem ajudar a prever ameaças, identificar suspeitos ou mapear redes de relacionamento não surgiu no Vale do Silício. Ela já estava presente nos laboratórios burocráticos do Estado alemão durante os anos mais intensos do conflito com a RAF.

A experiência também deixou um legado político duradouro. Foi justamente nesse contexto que surgiram alguns dos primeiros grandes debates sobre privacidade, vigilância estatal e concentração de informações pessoais em bancos de dados governamentais. Críticos da época alertavam que as tecnologias criadas para “combater o terrorismo” poderiam, no futuro, ser utilizadas para monitorar a sociedade como um todo. Relendo essas críticas hoje, é difícil não perceber o quanto elas anteciparam discussões contemporâneas sobre coleta massiva de dados, reconhecimento automatizado de padrões e inteligência artificial aplicada à segurança pública.

O combate à RAF foi um dos primeiros momentos em que a promessa tecnológica do processamento de dados encontrou, em larga escala, o poder coercitivo do Estado. O resultado não foi apenas uma nova forma de investigação criminal. Foi também um ensaio histórico da sociedade digital em que vivemos atualmente.

E vale a lição: nem sempre são necessários computadores mais poderosos, afinal os processos, o entendimento do problema, e uma boa implementação são capazes de produzir excelentes resultados. A genialidade humana sempre está no controle, seja para caçar, seja para escapar e transformar o caçador em caça.

Nota: As técnicas de cruzamento massivo de dados (Rasterfahndung) desenvolvidas pelo BKA sob a direção de Horst Herold são frequentemente apontadas por historiadores da tecnologia e da segurança pública como precursoras de práticas contemporâneas de mineração de dados, perfilamento algorítmico e policiamento orientado por dados. Ver Bergien (2017), Sowada (2022), documentação histórica do BKA e estudos sobre o sistema INPOL.

Referências utilizadas

Muitas estão em alemão, então a saída é utilizar LLMs para traduzir e sintetizar. Ou encontrar alguém que possa adaptar esses trabalhos. Ou matricular-se no Instituto Goethe :)

Sobre a IBM e os campos de concentração e extermínio

Sobre Horst Herold, o BKA e a informatização policial

Sobre o sistema INPOL

Sobre a Rasterfahndung (“busca por padrões”)

Sobre a relação entre RAF, bancos de dados e vigilância

Sobre a história dos computadores policiais na Alemanha