Comecei a ler a excelente biografia de Luiz Carlos Prestes, escrita por Anita Prestes [1], e logo nas primeiras páginas me deparei com um episódio que me chamou a atenção.
De um lado, um jovem capitão do Exército, ainda distante do socialismo, mas já movido por um rigor quase obsessivo com a administração dos recursos públicos. De outro, outro jovem, Roberto Simonsen, empresário em rápida ascensão, cuja fortuna começava a ser construída graças à estreita relação entre seus empreendimentos e o Estado brasileiro.
É um contraste interessante.
Naquele momento, Prestes ainda estava forjando sua compreensão política do Brasil. Sua oposição às oligarquias não tinha ainda caráter socialista; era antes uma crítica moral às práticas de favorecimento, desperdício e corrupção que via diariamente.
O encontro indireto entre ambos ocorre justamente na construção de quartéis militares. Coube a Prestes fiscalizar obras executadas por empresas contratadas pelo Ministério da Guerra, entre elas a Companhia Construtora de Santos, pertencente a Roberto Simonsen.

Roberto Simonsen
Segundo Maza ([2], p. 79),
“Simonsen é talvez a prova mais cabal de que os empresários industriais paulistas possuíam um projeto de hegemonia política que foi sendo construído no decorrer dos anos trinta.”
Seu objetivo era a industrialização do país. Em seus escritos, identificava como principais obstáculos ao desenvolvimento nacional
“(…) a falta de combustível, a deficiência dos transportes, as dificuldades de técnicos e de mão de obra apropriada, a falta de capitais.” ([2], p. 82).
Antes de fundar sua própria empresa, Simonsen acumulou experiências que certamente contribuíram para formar sua extensa rede de relações. Trabalhou na Southern Brazil Railway, empresa do empresário estadunidense Percival Farquhar — cuja atuação esteve ligada, entre outros episódios, à Guerra do Contestado — e posteriormente ocupou cargos na prefeitura de Santos, chegando a engenheiro-chefe da Comissão de Melhoramentos da cidade.
Em 1912 fundou a Companhia Construtora de Santos. Logo obteve contratos com a prefeitura para construção de habitações populares e outras obras públicas. Para isso, contou com uma legislação municipal que concedia incentivos aos investidores desse setor, medida que já despertava críticas por favorecer diretamente seus negócios.
Mas seria sua relação com o Ministério da Guerra que marcaria definitivamente sua trajetória empresarial.
Entre 1922 e 1925, sua empresa foi responsável pela construção de dezenas de quartéis espalhados pelo país.
Como observa Maza,
“As obras de construção de quartéis (…) deram-lhe a ideia de construção em série e fez com que seu interesse se voltasse aos processos de industrialização.” ([2], pp. 84-85).
Esses contratos, entretanto, não surgiram por acaso.
Segundo o mesmo autor,
“Atrás de suas cordiais relações com Pandiá Calógeras, ministro da Guerra do governo Epitácio Pessoa, Simonsen consegue contrato para a construção de 103 estabelecimentos militares em 26 cidades de nove estados (…).” ([2], p.100).
Os contratos permaneceram cercados por suspeitas durante anos. Em 1930 houve uma investigação oficial sobre sua execução. No ano seguinte, o próprio Simonsen publicou o livro A construção dos quartéis para o Exército, defendendo-se das acusações e sustentando que todas as obras haviam sido corretamente executadas ([2], pp.100-101).

Prestes, Capitão do exército, em serviço no Rio Grande do Sul, 1923-1924. Imagem recortada de uma foto presente em [1].
Sem provas de seu envolvimento com a revolta tenentista de 1922, Prestes foi transferido do Rio de Janeiro para o interior do Rio Grande do Sul, numa punição informal ([1], pp.36-37).
Ali recebeu a chefia da fiscalização das obras dos quartéis de Santo Ângelo, Santiago do Boqueirão e São Nicolau ([1], p.37), justamente algumas das construções executadas pela Companhia Construtora de Santos.
Desde o início percebeu que a fiscalização era praticamente impossível.
Não existiam especificações técnicas suficientemente detalhadas para comparar o executado com aquilo que havia sido contratado. Em diversas ocasiões tentou deixar a função, alegando que lhe faltavam condições mínimas para realizar um trabalho sério.
O contrato, considerado por ele “terrível”, estabelecia que a Companhia Construtora de Santos arcaria inicialmente com todas as despesas locais e, após a aprovação das contas, receberia de volta esses valores acrescidos de 10%.
Na prática, quanto mais rapidamente as despesas fossem aprovadas, mais rapidamente a empresa seria remunerada pelo Ministério da Guerra.
Prestes fazia exatamente o contrário do que dele pareciam esperar.
Quando julgava as despesas corretas, aprovava-as normalmente.
Quando encontrava qualquer dúvida, elaborava longos relatórios técnicos justificando suas objeções, retardando deliberadamente a liberação dos pagamentos.
Em uma das inspeções, determinou o embargo de uma grande remessa de materiais enviada de São Paulo.
Além da baixa qualidade dos produtos, questionava a própria lógica da operação: por que transportar materiais inferiores por centenas de quilômetros quando poderiam ser adquiridos localmente, com menor custo e melhor qualidade?
Recebeu um telegrama da chefia determinando a suspensão do embargo.
Recusou-se.
Respondeu formalmente justificando sua decisão e manteve a interdição.
Em outra ocasião verificou que determinado quartel sequer possuía um projeto adequado para o sistema de esgoto. O problema era tão elementar que ele próprio elaborou uma solução, evitando, como recordaria anos depois, que o esgoto de um edifício acabasse descarregando em outro ([1], p.39).
Os conflitos continuaram.
Chegaram operários especializados para executar parte da obra, mas não havia sequer um projeto técnico que orientasse o serviço. Ainda assim recebiam diárias normalmente.
Mais uma vez Prestes embargou os trabalhos.
Foi então afastado da função, oficialmente “por necessidade de serviço” ([1], p.40), sendo transferido para o batalhão ferroviário de Santo Ângelo.
Anos mais tarde resumiria toda essa experiência com uma ironia característica:
“De maneira que essa foi minha vida com a Companhia Construtora de Santos.” ([1], p.40).
Anita Prestes acrescenta ainda um detalhe revelador.
Segundo seu relato,
“Ao referir-se a essa empresa de propriedade de Roberto Simonsen, Prestes ressaltava que esse grande empresário era muito amigo do general Cândido Mariano Rondon (…). Nos escritórios da Companhia Construtora de Santos havia sempre um grande retrato do general Rondon.” ([1], p.40).
Nem mesmo ao final de sua atuação as pressões cessaram.
Recebeu um emissário do general Barcelos instruindo-o a simplesmente devolver as contas rejeitadas, sem anexar relatórios técnicos que justificassem suas decisões.
Também recusou essa determinação ([1], p.40).
Penso que esse episódio ajuda a compreender um momento decisivo da formação política de Prestes.
Sua oposição ao regime ainda era fundamentalmente moral. Indignava-se com o desperdício, com o favorecimento político e com a promiscuidade entre Estado e grandes empresários. Ainda não questionava, de forma sistemática, o próprio sistema que produzia essas relações.
Mas experiências como essa foram moldando sua visão de mundo.
Pouco depois viria a Coluna Prestes. A longa marcha pelo interior do país permitiria ao jovem oficial conhecer um Brasil muito diferente daquele visto dos quartéis e dos gabinetes militares. O contato direto com a pobreza, o abandono e a realidade das massas populares aprofundaria sua crítica à República oligárquica.
O moralismo inicial daria lugar, aos poucos, a uma compreensão estrutural da sociedade brasileira.
O jovem oficial rigoroso transformaria sua indignação ética em consciência revolucionária.

